O Procurador de Justiça José Antônio Borges Pereira protocolou, no dia 16 de março de 2026, um Pedido de Providências junto ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) para suspender o financiamento privado de um projeto institucional do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT). A denúncia aponta um suposto conflito de interesses, uma vez que o projeto, denominado "Diálogos com a Sociedade", é custeado por empresas que são alvo de investigações e processos judiciais movidos pelo próprio órgão ministerial. Confira ao final quais procedimentos pesam contra as referidas empresas.
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De acordo com o documento, entre os anos de 2024 e 2025, o projeto arrecadou aproximadamente R$ 2.702.819,99 em patrocínios. Esses valores não transitam pelo orçamento público oficial, sendo depositados diretamente em contas da Associação Mato-grossense do Ministério Público (AMMP), que atua como intermediária financeira do projeto gerido pela Procuradoria-Geral de Justiça.
Procedimentos
O ponto central da representação é a relação entre os doadores e os procedimentos judiciais (processos na justiça) e extrajudiciais (investigações internas do MP) existentes. O procurador argumenta que o recebimento desses valores compromete a independência funcional dos membros da instituição.
Entre as empresas e entidades citadas como doadoras que possuem pendências com o Ministério Público, destaca-se a Aprosoja, responsável por um repasse de R$ 400 mil, em 2025, ao projeto. Paralelamente à doação, a entidade figura em um Procedimento Administrativo para cumprir um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que prevê o ressarcimento de R$ 5.400.000,00 aos cofres públicos.
A Energisa Mato Grosso, concessionária de energia, doadora de R$ 220 mil em setembro de 2025, responde a ações por falhas na prestação de serviços essenciais e danos morais coletivos em municípios como Campinápolis e Alto Garças.
Amaggi e Grupo Bom Futuro possuem investigações sobre ocupação indevida de bens públicos e danos ao ecossistema. Recentemente, em março de 2026, o MPMT requisitou a abertura de inquérito policial por crimes ambientais contra administradoras ligadas a esses grupos.
Águas Cuiabá e Águas de Sinop, concessionárias de saneamento, enfrentam ações do MP que contestam reajustes tarifários considerados abusivos e lançamentos irregulares de esgoto.
A Ginco Urbanismo, outra empresa que contribuiu com diversos repasses ao projeto, é alvo de múltiplas Ações Civis Públicas e inquéritos civis. As investigações apuram desde irregularidades urbanísticas e ambientais no empreendimento "Ginco Zurique" até danos aos consumidores por cobranças abusivas.
Impacto na imparcialidade institucional
O autor do pedido destaca que o patrocínio cria um risco à imagem de isenção do Ministério Público perante a sociedade. Segundo o texto, o recebimento desses auxílios é vedado pela Constituição Federal aos membros do órgão, mesmo quando feitos de forma indireta.
Além disso, o procurador relata episódios em que representantes de empresas patrocinadoras, como a Aprosoja e a construtora Plaenge, teriam questionado a atuação de promotores de justiça que presidiam investigações contra seus interesses.